Está doendo!
De quem é a culpa?
Culpa… a danada da culpa!
Sabemos culpar e sabemos como é se sentir culpado. Sabemos bem qual é o peso desse sentimento. Especialmente quando ele recai sobre nós. E mesmo assim, não hesitamos em despejá-lo nos outros quando nos sentimos feridos.
Também não fazemos isso por mal. Apenas porque não sabemos como esse sentimento é gerado e como podemos recolher suas raízes para não vê-lo mais crescer.
A culpa não existe! Não existem culpados. Acreditar nesse sentimento e na autenticidade do poder de imprimir a culpa, é fechar-se numa prisão. É impedir que tudo se equilibre e a paz se mostre como a nossa condição natural e inabalável.
Até que tenhamos clareza sobre a nossa participação na criação da realidade, viveremos envoltos pelas paredes desta prisão. E esta prisão é uma imensa sala de espelhos. Para onde olhamos, vemos a nós mesmos. Imagens infinitamente refletidas! Um jogo que parece não ter fim. Quando nos movemos, tudo se move. E o que se move nos leva a mais e mais movimento.
Está é uma prisão extremamente triste, especialmente porque não a vemos. Acreditamos que seguimos livres andando a céu aberto e vendo as coisas como elas são. Mas, não! Estamos nesta sala experimentando a nós mesmos o tempo todo.
Nossas experiências e o que elas nos causam apontam apenas para este lugar, nossos próprios conteúdos que vão sendo derramados sobre tudo o que avistamos, ouvimos, tocamos, sentimos. É uma prisão muito poderosa por agir silenciosa e oculta. Mas ao mesmo tempo é incrivelmente frágil, porque ela não apresenta nenhum traço de materialidade. É sutil e depende da nossa participação. Portanto, ao interrompermos nossas reações, os dias desta prisão estarão contados. Temos escolha!
Precisamos admitir que o mundo como o vemos espelha exatamente o que levamos dentro, na mesma proporção. E isso precisa de atenção e paciência para ser reconhecido, curado e liberado. É a única forma de sentirmos paz e alegria genuínas e nos abrirmos para a vida. Ou isso é compreendido ou nada poderá ser feito. Não há nenhuma experiência que seja diferente disso. Mesmo aquela em que alguém deliberadamente tenha nos agredido. Mesmo esta dor, ela é fruto do que carregamos dentro, antes mesmo do agressor chegar. Ninguém pode nos machucar, a não ser que a dor já esteja dentro! Todas as dores desse momento apenas nos lembram que temos nos distraído do que realmente há para ser feito.
E o que temos a fazer?
Alegria! A porta de saída para os nossos sofrimentos está se abrindo. E vamos atravessá-la.
Culpar alguém por nos sentirmos mal, é como querer ver o sol nascer olhando para oeste. Não vai acontecer nada. Vamos apenas perder tempo, e com o tempo, a paciência! E sem paciência seremos nós os próximos a agredir.
Assim, quando algo nos afetar em função do que alguém nos disse ou fez, imediatamente nos voltaremos para as sensações, sentimentos e reações ligados diretamente a nossa corporeidade, respiração e imagens mentais. Sem olhar pra ninguém, sem contar histórias, sem tentar resolver a situação através de ideias ou conclusões, sem se debater, sem dar nenhuma resposta apressada, ficaremos quietos, assentados em nós mesmos, com tudo o que nos acompanha e está se movendo.
Nada a fazer!
Nós vamos apenas relaxar. O que a princípio pode parecer injusto e até mesmo uma tortura! Como relaxar se tudo em mim está ardendo, doendo. Falta-me o ar, estou sem chão. Relaxar é impossível! Isso é uma loucura. Algo precisa ser feito. É necessário agir agir!
É mais ou menos assim, não é?
O que precisamos compreender é que a dor já estava lá e todas essas reações estavam prontas para emergir. Sempre estiveram. Nós somos seres profundos de onde qualquer coisa pode surgir. Nós mesmos podemos nos surpreender com nossas reações! E isso é realmente perigoso. Porque todas as ações trazem consequências, e nós vamos ser chamados pela vida para lidar com o rastro que nossas ações deixam para trás. Tudo é percebido, tocamos e seremos tocados de novo, com a mesma intensidade do que fizemos! Não há como escapar disso. Somos responsáveis pelo que fazemos e pelo resultado das nossas ações.
Sem ser um peso, esta compreensão nos liberta. Passamos de vítimas e seres maduros olhando para o que precisa ser visto.
Portanto, é de muito bom senso fazermos esse trabalho, aceitando nossa solitude como uma base para liberarmos essas dores e suas prontidões que nos têm impedido de agir de forma adequada com o que de fato está acontecendo.
Sem estarmos em paz e presentes, nossas respostas correspondem apenas àquela sala de espelhos, onde nos debatemos com o que se move dentro e que parece estar fora. Se reconhecermos isso, vamos entender que até que uma clareza maior surja, nossas ações não têm efeito nenhum sobre as verdadeiras razões do nosso sofrimento.
E assim, somos convidados a evitar reações imediatas e focadas sobre os acontecimentos. Damos um passo para trás! Já sabemos que o que está acontecendo espelha o que precisa ser olhado com calma e profundidade. Agir sobre os fatos enquanto eles se mostram, vai apenas sustentar uma visão superficial e fantasiosa.
E parados o que temos para olhar? O que dá vida a essas reações internas já que o que ocorre fora não é a causa? Estamos diante de uma grande riqueza. Estamos prestes a nos liberar da dor e deixar que se expandam nosso brilho e vitalidade essenciais!
Sem sermos apresentados à natureza da realidade, andamos cegos! É chegada a hora de nos conhecermos e olharmos para tudo como tudo é.
Desde que nascemos vamos acumulando memórias daquilo que não foi olhado com bons olhos, olhos esclarecidos pela luz da consciência aberta, sem marcas, sem referências. As referências vão surgindo pelo convívio, vamos aprendendo a reagir ao mundo na medida em que recebemos da nossa cultura um padrão de comportamento. Ninguém é original. Somos frutos da repetição, daquilo que vemos nossos pais e toda a comunidade fazendo. Fazemos igual. Não sabemos fazer diferente. Não somos apresentados a nós mesmos como seres inteiros, completos, livres e lúcidos. Vamos sendo treinados para reagir de acordo com a memória do que os nossos antepassados já viveram. E assim, vamos sendo guiados pela memória. Não liberamos os fatos. Nós os carregamos! O passado vai sendo guardado em forma de “frascos energéticos”. Por isso o passado parece ter vida. Como é isso?
A energia é sempre atual. Tem seu frescor e vitalidade preservados. Intrinsecamente ela nunca se alia ao que já passou. Mas nós podemos fazer a mágica de manter o passado vivo! Podemos tomar o frescor e a vitalidade da nossa energia e direcioná-la para histórias que passamos a contar. Pensamos sobre o passado, lembramos de fatos passados e damos vida a eles. Enquanto lembramos de algo, não nos damos conta de que estamos oferecendo as forças que nos acompanham para essas memórias. Enquanto olhamos para o passado estamos vivos aqui, neste corpo com suas carnes, sangue e nervos. Estamos respirando, sendo atravessados pelo sopro da vida. E tudo isso vai se misturando ao que a consciência vê e conta sobre aquilo que vê. É dessa mistura que vem a força das histórias. Não delas mesmas, mas do que oferecemos a elas, do que acrescentamos enquanto as imagens e discursos são elaborados. Há, portanto, essa possibilidade e nós somos os magos e feiticeiras fazendo esse feitiço contra nós mesmos.
Dito isso, vai ficando mais claro o que temos para fazer. O ponto é deixar a energia livre das histórias. Liberar nossa força destes frascos empoeirados! É um trabalho delicado que exige paciência, dedicação e constância. O tempo será nosso amigo. Precisamos apenas fazer a nossa parte!
E tudo começa com o relaxamento. É preciso afrouxar toda a estrutura que está pronta para entrar em ação. Essa estrutura é formada pelo encontro do nosso corpo com a nossa respiração e a forma como a nossa consciência se manifesta.
Iremos começar pelo corpo! Pelo que temos de mais palpável, inconfundível e que não precisa de nenhum pensamento nosso para existir. Ele simplesmente está aqui e sabe relaxar. Nós vamos deixá-lo à vontade. Vamos encontrar um lugar onde possamos deixá-lo numa posição de entrega, para sentirmos apoio e deixarmos a gravidade trazer um profundo assentamento para nossas carnes, fluidos, ossos e nervos.
Feito isso, enquanto nosso corpo é deixado para que a gravidade o trate, nós fechamos nossos olhos, ou cobrimos nossa cabeça com um lenço, ou permanecemos em um ambiente com pouca luz. Isso trará a sensação de uma proximidade maior com nós mesmos. Com a nossa composição básica: corpo, sopro e presença.
Somos acompanhados por forças que ao serem deixadas à vontade irão fazer todo o trabalho. Não seremos nós a elaborar a cura nem a liberação das nossas dores. Não somos os protagonistas desse processo. Somos a testemunha!
E quanto o corpo é deixado à vontade, em repouso, acompanhamos a nossa respiração. O ar vai entrar pelas narinas como uma brisa. Entrará leve e irá circular pelos caminhos abertos. E saíra pela boca, quente e úmido, acompanhado de um suspiro, um suave Ahhhhh… A de alívio, A de liberação. Estamos deixando ir, deixando passar.
Ahhhh…
Enquanto o ar sai, relaxamos a cabeça, as costas, os braços e as mãos o máximo possível. Quando o ar entra seguimos sentindo a brisa. Há uma leveza na chegada do ar, e uma profundidade quando ele deixa nosso corpo.
A uma certa altura do exercício, a gravidade irá se misturar com a profundidade das exalações e passaremos a sentir uma qualidade de entrega maior. As reações irão desaparecendo e começará a surgir mais e mais conforto.
Também cuidaremos dos nossos olhos e do nosso olhar. Os olhos vão sendo trazidos para junto do corpo relaxado. Eles também vão receber o tratamento da gravidade. Irão se acomodar em suas cavidades e se possível, serão cobertos pelas pálpebras ou por um lenço. Vamos deixar os olhos no escuro e vamos olhar para a escuridão. Mesmo com os olhos fechados, o olhar não será abandonado ao léu, deixado vaguear em qualquer direção. Nós vamos proteger o olhar, mantendo-o ancorado nos olhos que relaxam num corpo relaxado. Olhar para o escuro cura o olhar. Libera o brilho da consciência, removendo a fixação aos pensamentos, imagens, cenários, lembranças. Quando nada é visto, resta o olhar. Ele nunca cessa. Mas até esse momento não nos dávamos conta de que existe o olhar e de que o olhar tem poder. Percebíamos apenas o que era visto. A visão era refém do que se via. Quando o brilho do olhar descansa das imagens, estamos presentes! Clara luz da presença.
A este ponto, vai desaparecendo a pessoa e o mundo que ela sustentava. Desaparecem as reações a esse mundo e portanto ele se dissipa como uma bolha de sabão. Vai a pessoa, suas ideias e emoções. A consciência desperta de um sonho! A pessoalidade que experimentamos é exatamente a nossa prisão. Aquela sala de espelhos. O conjunto de referências que nos faz ver o mundo como ele tem aparecido aos nossos olhos. Se isto é reconhecido, estamos em paz!
Quando um corpo é deixado à vontade, respirando em paz entre o Céu e a Terra, não há como a consciência seguir se debatendo. Ela é convidada a também encontrar o seu lugar natural, como puro espaço aberto.
E assim, nós nos percebemos num campo de grande poder. Tudo vai sendo curado e liberado, não porque resolvemos os problemas ou porque os jogamos fora. Nada nesse sentido foi feito. Tudo se dissipou porque tudo foi abandonado, deixado em si mesmo, entregue à sua própria natureza. Tudo o que experimentamos se move e tem por destino passar, desaparecer. E nada precisa ser feito para que isso ocorra. Precisamos apenas repousar e ver que é assim. Acompanhar, Testemunhar.
E é assim que a própria noção de que alguém fez algo e foi vitorioso ao lutar contra um inimigo, um monstro, isso também desaparece. Desaparece a pessoa que sofria e também a pessoa que venceu o sofrimento. Ser alguém era o que nos trazia sofrimento. Toda forma de ser traz sofrimento, porque precisa ser defendida. Tem seus pontos de vista, necessidades e preferências. E a vida na sua inapreensão, nunca atenderá às condições de uma pessoa. Ela flui livre e cheia de surpresas. E para poder participar disso, precisamos ser como ela! Precisamos nos reconhecer como a própria vida… inapreensíveis e surpreendentes.
E assim, feito o exercício, lentamente voltamos a nos mover. Vamos gradualmente nos experimentando numa nova condição. Num corpo assentado, com menos prontidões e mais abertura, com suas forças livres, apaziguado. Vamos nos levantar respirando sem susto, recebendo esse sopro sem origem ou destino, que nos leva para recepcionar o mundo e transbordar. Abriremos os olhos vindos da escuridão, mansos e brilhantes, com um olhar capaz de apreciar o que é visto sem remover ou acrescentar nada. Estaremos em silêncio presenciando a vida que ocorre silenciosa e potente.
É isso. Está feito!
Agora já temos um caminho, um apontamento que nos conduz a essa condição. Só depende de nós, é uma escolha. O que você escolhe?
E assim, quando nos sentirmos mal, evitemos apontar para fora. E caso a tentação seja grande, que tenhamos a graça de encontrar bons amigos que não confirmem nossa visão, mas nos levem a um lugar mais amplo onde possamos fazer o nosso exercício de auto liberação. Porque ninguém tem culpa do que sentimos. Tampouco somos culpados. Simplesmente não há culpa!

