O imprevisto é confortável
Sabe-se que nada se sabe
Quando estivermos realizando algo, qualquer coisa, que isso não nos pareça só mais uma atividade, algo intermediário. Que em nenhum momento estejamos aguardando por algo mais importante. Não há nada intermediário! Nada menor. Cada momento é completo. Toda ação é inteira.
Se essa não for a nossa experiência, estaremos perdendo tempo, nos desgastando e abrindo espaço para a desatenção e movimentos desajeitados. Estaremos cultivando o terreno propício para consequências indesejadas.
Nossas atividades, todas elas, desde a mais simples e singela, deveria ser uma base para estarmos presentes, pois a riqueza de cada ação está na sua potência de nos fazer despertar.
Cada ação se encerra em si mesma, como um círculo perfeito. Ela não faz parte de uma história que vai sendo tecida pela costura de um evento no outro. Isso é o que imaginamos, precisa ser sonhado. E sonhos precisam de gente adormecida.
Veja! Não estamos realizando um projeto de vida. A vida não precisa dos nossos projetos. Ela não é um projeto. Ela é como é. E apresenta-se enquanto vivemos. Ela está nos mostrando algo!
Projetos dizem respeito ao futuro. E para pensar no futuro, precisamos abandonar o que está em nossas mãos, precisamos nos distrair do que está aqui. E cada vez que somos levados pela imaginação, nos enfraquecemos, nos movemos desacordados. Tocamos o mundo vendo o que não existe.
Cada gesto, cada ação, é tudo o que há. Serve como uma âncora para nos manter aqui, com os pés no chão, onde respiramos, onde nossas mãos tocam o mundo, onde, enfim, a vida está!
É somente a partir dessa inteireza que podemos despertar para a verdadeira e maior dimensão da nossa consciência, onde fantasmas e alucinações são dissipados. Onde repousamos plenos e o “fazedor” deixa de ser importante, tornando-se parte do que ocorre, nascendo junto com o que é feito, sempre novo e criativo. Ele deixa de ser o protagonista e proprietário do que ocorre para fluir com o que está se movendo. O que é feito não está a seu serviço, mas a serviço da vida naquele momento.
Nada precisa ser imaginado! O desdobramento de cada gesto mostra o próximo ato. Em tudo o que é feito há uma descoberta. Revelações chegam enquanto tudo é realizado. E se surpresas ocorrem, não nos assustamos. O imprevisto é confortável. Sabe-se que nada se sabe. Estamos à vontade. Deixamos que a potencialidade de cada instante nos atravesse e inspire, chegando misteriosa e abrindo o campo das ações.
Agir é se relacionar! Nossas ações se relacionam com o que está presente. Tudo está vivo. Não estamos diante de um mero cenário visual. É muito mais profundo! Tudo o que avistamos faz parte de um campo onde forças se conectam e atuam. Nenhum objeto ou ser existe à parte desta realidade. Tudo vive em conjunto. Cada elemento fala do todo, traz informações sobre si e sobre o campo. Tudo tem poder! O poder de esclarecer, orientar, curar e encantar. Por isso, o que tocamos e a forma como tocamos, importa. Estamos participando de uma realidade extremamente forte e ao mesmo tempo delicada e sutil.
Acompanhar cada ação e seus resultados, aponta para um novo lugar, onde somos íntimos da existência. Participamos de um campo em transformação constante. Nós nos compomos com o que está aqui e somos levados a compor. E quando isso ocorre, nosso coração expande. Transbordamos habilidades. Somos capazes do inimaginável, nos tornamos uma surpresa para nós mesmos. A flor do nosso ser se abre e nos regozijamos com toda a existência!
Podemos duvidar de que isso seja possível, dizendo que o mundo está agitado demais para conseguirmos relaxar e nos abrir dessa forma. Podemos dizer que a vida exige respostas rápidas, que não podemos estar assim tão disponíveis. Que o mundo é ameaçador e é preciso estar pronto para agir a qualquer momento. Que não há como viver sem planos. Que é preciso premeditar o futuro para assegurar nosso conforto.
Pois bem, aqui precisamos admitir algo! O mundo só é o mundo como o conhecemos, porque ele nasce do que acreditamos e se perpetua porque forjamos uma realidade com base no que imaginamos.
Onde todos estão apressados e dedicados a seus projetos, parece que isso é natural. Mas não é natural. É sonhado por cada um e compartilhado em cada conversa, em cada encontro. Há uma escola que nos ensina a sonhar! E nela somos professores e alunos. Transmitimos nossas visões. Fazemos isso uns com os outros.
Mas agora podemos mudar a lição. Onde uma pessoa estiver relaxada e aberta, tocando tudo com calma, se servindo da força do que está presente, fará com que as certezas do grupo estremeçam! O relaxamento vibrará no campo das relações e isso será transmitido aos demais. Há um corpo presente se manifestando de outra forma. E como nada passa desapercebido, isso fará diferença, será notado. Em todo lugar haverá sempre alguém cansado, farto o suficiente da pressa e da premeditação para se sentir chamado pelo relaxamento e levado a descansar também. E quando alguém relaxa, algo mágico acontece!
Relaxados, nos abrimos para um campo de dádivas, para um fluxo de experiências que não ocorre porque nós o promovemos ou controlamos, mas porque a vida o manifesta em seu mistério. Nós apenas participamos! E ao participarmos, descobrimos que sempre foi assim. Que esse campo sempre esteve disponível. Precisava apenas da nossa abertura para se mostrar e nos levar para passear, desfrutando e espalhando suas bênçãos.
Podemos ser o relaxamento vivo onde estivermos! Podemos inspirar o mundo ao andarmos mais devagar, ao tocarmos tudo com a delicadeza das nossas mãos. Nada precisas ser feito às pressas, de qualquer jeito! Cada gesto pode nascer suave e ter a força da nossa presença.
Cada momento é uma dádiva. Desde acordar, tomar banho, tomar café ou chá. Arrumar a cama, vestir-se, sair para encontrar as pessoas. Ir ao trabalho, almoçar. Fazer uma pausa, estar só… descansar antes de ir adiante.
E assim, mesmo em movimento, vamos sendo curados da pressa, da agitação das ideias, nos sentindo tão vivos que tudo se mostrará vivo e nos conduzirá. Tudo o que precisamos saber para dar o próximo passo estará presente! Haverá claridade, fazendo medos e dúvidas se dissiparem como nuvens.
O que se apresentar será bem vindo e nos levará para onde precisamos ir. Mas antes mesmo de chegarmos, já estaremos bem. Encontramos o nosso lar bem aqui, onde já estávamos.
E ao final de cada dia, iremos agradecer pelas graças recebidas e pelo amor compartilhado. Tudo foi bem feito e nos sentiremos em paz.

